
Recentemente, fui convidado pelo amigo, escritor e jornalista Jair Farias para ler e opinar sobre o seu mais recente romance que será lançado em breve!
Aguardemos e vamos ao texto.
Um olhar crítico sobre a obra
Aproveitei esses dias de folia não para sair em algum bloco de carnaval, mas para ler; ler uma boa literatura que convida o leitor a viajar em uma genial trama que envolve diferentes personagens. A história tem como cenário de fundo algum cantão esquecido do Nordeste Brasileiro lá para as bandas de Igaraci.
A sensação primeira é que estou diante da tela apreciando um daqueles filmes em preto e branco que sofreram alguma influência da linguagem e do enquadramento “glauberianos”, em que se evoca uma brasilidade quase imemorial nesses tempos virtuais, ocorrida em um outro Brasil.
Apesar do mote que nos leva a pensar nesse movimento retrospectivo do cinema nacional, não falaremos da Sétima Arte, ou do Cinema Novo. Traremos, sim, um olhar subjetivo sobre um romance com características próprias, personagens singulares inseridas em algum sertão poeirento e esquecido nas terras da Paraíba.
É a partir dessa impressão inicial que, primeiramente, quero agradecer ao meu amigo de tantos sonhos literários, jornalista e escritor (cada vez melhor), Jair Farias pelo convite para uma leitura crítica e, também, colaborativa, do seu mais recente trabalho “O homem de barro”.
Procurarei, nesta breve reflexão, me ater a uma impressão pessoal para não frustrar as expectativas de outros leitores, pois, afinal, o convite que nos é apresentado pelo conjunto da obra requer a evocação dos saberes de mundo, sintetizados nas experiências pessoais de cada um de nós.
Disto isso, vamos ao livro.
O Homem de Barro – um convite para a imaginação
A narrativa apresentada no romance é um convite aberto a imaginação de cada um dos leitores. Embora a história, em sua maior parte, aconteça em uma pequena localidade no sertão das terras de João Pessoa, no Nordeste Brasileiro, mais precisamente em Igaraci, nos soa familiar já nas primeiras páginas do romance.
O autor resgata com sua narrativa uma forma de escrita que desperta no leitor a imaginação de cenas recortadas ao conceber um mundo quase feudal, onde terra, miséria, subserviência, exploração da mão de obra e relações humanas criam uma atmosfera de mistério, violência e cumplicidade.
Na perspectiva de uma narrativa criativa e, ao mesmo tempo, quase existencialista, à medida que se avança na leitura, passa-se a conhecer as características físicas e psicológicas das principais personagens, que sustentam o enredo. Isso desperta no leitor a vontade de continuar negociando a construção de sentidos entre a interpretação e a inferência.
O texto que, a princípio, poderia se apresentar como uma “contação” previsível de histórias, estereotipada e costurada por meio de uma trama superficial, rapidamente se desfaz. Página após página, as personagens vão ganhando características singulares e expressando pensamentos próprios, que evocam a busca do humano e de sua complexidade existencial, como no caso de Aldo, a cada diálogo, a cada cena que se desenvolve.
A morte do Seo Gervasio, por exemplo, é um acontecimento que envolve toda a comunidade da pequena localidade, trazendo para a trama uma aura de mistério e suspense. Nesse momento singular, a narrativa, além de descortinar o fato em si, propõe um mergulho subjetivo em questões metafísicas a respeito da existência humana e como lidamos com isso. Outros aspectos também podem ser interpretados, que vão além das tragédias pessoais.
É preciso ressaltar que “O homem de barro” apresenta, também, uma crítica social contundente, em que a exploração da mão de obra barata, em uma sociedade miserável, e as relações de poder dos representantes de um estado autoritário ficam evidenciadas, por exemplo, na figura do Capitão Vicente e seu subalterno com as pessoas comuns do lugar.
A cada romance, a cada texto, Jair Farias vai aprimorando seu estilo literário único, construindo mundos onde a realidade e a ficção parecem dialogar com o leitor, criando oportunidades preciosas para o questionamento do Ser.
Nessa perspectiva, portanto, o título do romance desperta uma provocação polifônica, sugerindo e resumindo, quiçá, um conceito de homem sob um viés religioso e profano que nasce do barro e na sua finitude volta ao pó, selando, assim, sua insignificância diante da criação divina.
Muito instigante sua reflexão, meu caro Saulo. Interessante a aproximação que você faz com dessa obra literária com a vertente cinematográfica do regionalismo, que considero uma das mais marcantes da nossa formaçãocultural. Fiquei curioso com as linhas gerais que você apresentou do romance de Jair Farias, autor que ainda não conheço, mas que terei em breve a oportunidade de fazê-lo. Você sempre com as boas novas culturais. Gratidão.