A MISSA DO GALO
- Saulo César Paulino e Silva
- há 15 horas
- 3 min de leitura
Atualizado: há 2 horas

Hoje, compartilho com os leitores deste espaço, mais uma história que ouvi, ainda, na infância, a respeito de algo que ocorreu há muito tempo em um bairro, naqueles tempos, distante da capital da cidade do Rio de Janeiro.
Para quem é (ou foi) morador antigo de Campo Grande, na Zona Oeste carioca, talvez tenha conhecido uma figura, nômade, chamado popularmente de "Sunguinha', que perambulava pelas imediações da estrada das Capoeiras, estrada do Rio do A, aventurando-se, quase sempre também, pela antiga estrada Rio-São Paulo entre outras.
O apelido, talvez, tenha surgido pelo fato desse andarilho estar sempre sem camisa, ou sem qualquer outra peça de vestimenta, que não fosse apenas uma sunga! Sujo, encardido pelo tempo, sem memória ou desespero aparente, era acolhido nas noites em postos de gasolina, marquises ou qualquer outro lugar que oferecesse um abrigo provisório para sua indiferença anônima.
No entanto, é a partir desse ponto que a minha própria história se cruza com a de "Sunguinha" e, isso vocês entenderão, mais adiante.
Durante a minha infância, nas férias escolares, eu viajava para o antigo estado da Guanabara, minha terra natal, visitar minha querida avó paterna Florisia Rosa da Silva com a família. Inclusive essa não é a primeira vez que faço referência a essa figura querida, pois, guardo na lembrança momentos muito especiais naquela casa acolhedora. (Aproveito para convidá-los, para ouvirem a música "Como antigamente", que resgata sonoramente alguns outros sentimentos sobre essas vivências).
Sempre que chegava à casa de Dona Florisia, em meio à alegria e a expectativa de dias de aventuras, encontrava meu primo João Francisco, filho de tia Lídia, uma das muitas irmãs de meu pai (se não me engano eram 10). Não raramente, João contava histórias e, claro, no seu repertório, havia aquelas narrativas de dar medo e deixar os cabelos em pé!
Certa vez, nos confidenciou que ao voltar de uma Missa do Galo, evento relgioso de tradição católica, na Paróquia de Sant’Ana, em Campo Grande, passou por uma sintuação assombrosa.
Contou, João, que caminhava pela estrada das Capoeiras, que à época era margeada por muita mata, marcada por sítios e fazendas, herança dos tempos da colonização portuguesa, quando se deparou com algo estranho que brilhava sobre a vegetação. Era como se fosse um enorme lençol branco, brilhante, que flutuava, vindo em sua direção. (Para saber mais sobre Campo Grande e seu desenvolvimento recomendo a leitura do blog "Memórias de Campo Grande", organizado pelo professor e amigo Carlos Eduardo de Souza, especialista na história do bairro).
João começou a correr em desabalada carreira em direção à casa de Vó Florisia e chegou quase sem cor com o coração a saltar-lhe pela boca. Enrolado no lençol e com a cabeça coberta, eu mal respirava, imaginando aquela cena de horror e mistério. Em outra cama, o Primo tecia suas considerações, dizendo que era alma do outro mundo.
O ambiente do quarto onde dormiamos, de certa forma, contribuia para a construção de um cenário quase lúgubre composto de moveis antigos, um ventilador dos anos 1940, que girava lentamente sobre uma cômoda desbotada. Ao lado, um abajur em formato de vela, com uma lâmpada avermelhada, que dava o arremate ideal para narrativas como aquela.
Essa história ficou em minha memória, e a guardo com certo realismo até os dias de hoje! Tempos depois, já na fase adulta, após o falecimento de minha Avó Florisia, soube que João estava com problemas psiquicos. Havia incendiado a casa de Dona Florisia, destruido documentos, móveis e passou a viver perambulando pelas ruas do entorno, somente de sunga, porém sem fazer mal a ninguém.
Havia enlouquecido!
Pelo que contam, moradores antigos do local ainda se lembram de João, o Sunguinha, andando quase sem roupa pelas ruas do bairro, procurando talvez pela aparição que avistou voltando da Missa do Galo, realizada na Paróquia de Sant’Ana, em Campo Grande, em uma madrugada de natal, de um ano que não me recordo.
Por isso, todas as vezes que me deparo com um andarilho, pelas ruas escuras da cidade, sem destino, ou à procura de respostas que só ele sabe, fico me perguntando qual seria a sua história, o que estaria por detrás daquela pessoa e qual seria a sua real identidade.
Esse é um tema tão sensível para mim, que compus uma música cujo título é Andarilho. Gostaria de convidá-los para ouvir.
Show, meu amigo. Adoro essas histórias de assombração que permeiam nosso imaginário e mexem com nossas memórias afetivas. Muito obrigado por mencionar meu blog. Um grande abraço.